Criar o hábito da leitura na infância é um dos presentes mais duradouros que um adulto pode dar a uma criança. Além de apoiar a alfabetização e desenvolver vocabulário, imaginação e autonomia, a leitura frequente tem impacto comprovado na saúde ao longo da vida: uma pesquisa da Escola de Saúde Pública de Yale aponta que leitores vivem, em média, quase dois anos a mais do que não leitores. A Organização Mundial da Saúde também reconhece a manutenção da função cognitiva como fator essencial de bem-estar — e a leitura figura entre os hábitos mais eficazes para isso.
Professores e especialistas em educação reuniram sugestões de títulos capazes de encantar leitores na fase de descoberta que vai dos cinco aos dez anos. As obras selecionadas pelos especialistas combinam humor, emoção, identificação com o universo infantil e linguagem acessível, elementos importantes para que a leitura deixe de ser obrigação e passe a ser vivida como prazer.
- Contos e Lendas de um Vale Encantado, de Ricardo Azevedo
O autor mergulha no imaginário do Vale do Paraíba para dar vida a figuras como o astuto Pedro Malasartes e o misterioso Corpo Seco, transformando bichos e personagens em protagonistas de conflitos genuinamente humanos. O mestre em Literatura Brasileira pela USP e professor de Literatura no Colégio Santo Ivo, em São Paulo (SP), Leonardo Matos, avalia que a leitura dessa obra é “uma experiência literária viva que convida à leitura compartilhada, como se estivéssemos diante de um autêntico contador de histórias na beira de um fogão a lenha”.
- A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga
Uma narrativa sensível, que mergulha nos desejos da infância. A protagonista guarda em sua bolsa vontades que o mundo muitas vezes não escuta. É nesse espaço entre o real e o imaginário que a história ganha força. “Com delicadeza, o livro convida à reflexão sobre identidade, expressão e crescimento, tocando o leitor de maneira profunda”, destaca a orientadora educacional do Colégio Positivo – Londrina e embaixadora de leitura do Instituto Positivo, Jany Dantas.
- O Menino Maluquinho, de Ziraldo
Clássico da literatura infantil brasileira, O Menino Maluquinho é a escolha da assessora de formação docente da Educação Infantil dos Colégios Positivo, em Curitiba (PR), Maria Cristina Metzger Branco. “A linguagem é leve, divertida e cheia de humor, além de dialogar muito com o universo da criança”, explica. As ilustrações ajudam na compreensão e tornam a leitura fluida, ideal para leitores iniciantes que ainda estão ganhando autonomia. Os pequenos se reconhecem na história e se divertem, o que torna a leitura prazerosa – o primeiro passo para formar leitores.
- Extraordinário, de R. J. Palacio
A orientadora Jany recomenda essa narrativa emocionante, na qual acompanhamos uma trajetória marcada por desafios, coragem e humanidade. A história conduz o leitor a um exercício de empatia, abordando temas essenciais de forma acessível e sensível. É uma leitura envolvente e emocionante, ampliando o olhar sobre o outro e sobre si.
- De Carta em Carta, de Ana Maria Machado
Pepe é um menino que resiste à escola, enquanto seu avô, Seu José, é um jardineiro que não sabe ler. O avô vive exausto, mas não sabe como buscar seus direitos e se aposentar. De acordo com o professor Leonardo, “a beleza da história está em ver Pepe descobrindo que, conforme aprende a escrever, ganha a oportunidade de transformar a realidade de sua família. É um livro que mostra, com muita delicadeza, como o conhecimento nos permite conquistar nosso lugar no mundo e, acima de tudo, nos dá condições de estender a mão e ajudar quem amamos”.
- Marcelo, Marmelo, Martelo, de Ruth Rocha
Outro clássico, a obra-prima de uma das autoras mais celebradas da literatura infantil no país é muito divertida. Maria Cristina afirma que o livro brinca com a linguagem e o significado das palavras, estimulando a curiosidade linguística e o pensamento criativo. Ao longo de suas páginas, a história transforma a língua em brincadeira e, quando ler vira jogo, o interesse das crianças cresce de forma natural.
- O Monstro das Cores, de Anna Llenas
Com delicadeza e apelo visual, esse livro apresenta um caminho possível para reconhecer e organizar as emoções. “A narrativa simples, aliada às ilustrações, transforma os sentimentos em algo compreensível e acolhedor, convidando a criança a explorar o mundo interior de forma leve”, recomenda a orientadora Jany.
- A Árvore Generosa, de Shel Silverstein
O texto simples, emocionante e acessível se combina a ilustrações minimalistas que ajudam na compreensão da história. Com delicadeza, a obra abre espaço para conversas sobre generosidade, amor e limites. Maria Cristina sugere a leitura compartilhada com a família, a fim de se compreender a essência da história, facilitando a leitura para os pequenos.
- O Livro Sem Figuras, de B. J. Novak
De acordo com Jany, a proposta deste livro, à primeira vista simples, é na verdade surpreendente: mostrar que sua força está nas palavras. Ao transformar o adulto em um mediador da leitura, a obra cria momentos de riso, conexão e encantamento. É uma experiência que quebra expectativas e reforça, de forma leve, o poder da leitura compartilhada.
- Os Adoráveis Bilhetinhos da Professora Ada, de Anderson Novello
Recomendado para crianças de cinco a oito anos, tem uma linguagem que se aproxima do cotidiano escolar. Explora conceitos como sensibilidade, imaginação e surpresa de forma delicada. Maria Cristina avalia que “a temática da escola geralmente cria uma identificação imediata com as crianças, garantindo uma leitura de fácil entendimento”.
- A História de Pedro Coelho, de Beatrix Potter
Pedro Coelho convida o pequeno leitor a entrar na história e viver a leitura como uma aventura, despertando naturalmente o interesse e o prazer de ler. É um texto curto e envolvente, com ilustrações clássicas que encantam e uma linguagem acessível. Maria Cristina recomenda essa obra como leitura de entrada ou início de autonomia. É uma narrativa com personagens identificáveis e imagens atraentes.
Para Jany, a escolha do livro certo pode ser decisiva para aproximar a criança da literatura. Obras que despertam identificação, curiosidade e emoção tornam a leitura mais significativa e ajudam a construir, desde cedo, uma relação positiva com os livros. A leitura tem a capacidade de ser um momento de vínculo, descoberta e prazer.


