Uma lona azul, um corpo em movimento e o silêncio. Com poucos elementos em cena, o artista potiguar Quemuel Costa constrói um espetáculo que investiga memória, identidade e as possibilidades de criação a partir da poesia negra. É dessa simplicidade que nasce “Azul Miró”, solo que retorna a Natal para uma segunda temporada, com apresentações gratuitas nos dias 15 e 16 de outubro, às 18h30, no Espaço A3.
A programação começa na terça-feira (13), às 19h, com uma roda de conversa sobre arte negra e economia criativa, no Teatro Laboratório Jesiel Figueiredo, no Departamento de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Deart/UFRN). O encontro reúne Quemuel e o artista visual, performer e pesquisador Judson Takará. O projeto também prevê apresentações fechadas para escolas públicas de Parnamirim, nos dias 13 e 14 de outubro.
A lona que dá nome visual à experiência cênica não nasceu de um conceito fechado ou de uma decisão calculada. Sua presença foi descoberta durante os ensaios, quando uma experimentação aparentemente simples abriu caminhos para a construção do espetáculo. A partir de uma sugestão do diretor Anderson Feliciano, Quemuel comprou o material e começou a brincar com suas possibilidades.
“Foi uma descoberta quase como um tropeço, assim. Como criança que pega um material e começa a brincar com ele”, conta o artista, em entrevista ao Saiba Mais.
A imagem talvez já estivesse guardada em sua memória. Na época em que o trabalho começou a ser desenvolvido, Quemuel e Anderson estavam em Salvador, trabalhando no Boca de Brasa, em uma rua que funciona como feira durante o dia. As barracas eram cobertas por lonas azuis quando os comerciantes encerravam as atividades. O artista considera a possibilidade de que essas imagens tenham influenciado, mesmo inconscientemente, a criação.
Inicialmente pensada pelo diretor como uma espécie de cenário ou fundo para o performer, a lona ganhou outras funções durante os experimentos. Em determinado momento, Quemuel desaparece sob o tecido, estabelecendo com ele uma relação que vai além da composição visual. A chegada do coreógrafo Alexandre Américo também contribuiu para desenvolver as possibilidades de movimento e interação com o material.
O resultado é um solo sustentado pela relação entre o artista e a lona, em uma cena que aposta na sutileza, na materialidade e no que pode surgir de um gesto simples. Para Quemuel, esse processo também transformou sua maneira de pensar o teatro.
“Eu vinha de uma graduação em teatro, com uma noção de espetáculo muito forte, de ter que fazer coisas muito grandiosas. E o trabalho é muito simples, muito pequeno, muito sutil. É, literalmente, eu e uma lona”, afirma.
Depois da experiência com “Azul Miró”, ele diz compreender melhor a potência de criações que não dependem da grandiosidade para produzir sentidos. A simplicidade, nesse caso, não significa ausência de elaboração, mas a possibilidade de descobrir novas camadas a partir de poucos elementos.
Um mergulho na poesia de Miró da Muribeca
O espetáculo também nasce de um encontro com a obra do poeta pernambucano Miró da Muribeca, cuja poesia atravessa a criação de Quemuel. Os textos do solo são assinados pelos dois artistas, enquanto a dramaturgia é construída por Quemuel e Anderson Feliciano, responsável também pela direção.
Para explicar essa relação, o artista recorre à imagem do mar. O contato com a poesia de Miró teria sido como mergulhar em uma imensidão e sair dela carregando marcas da experiência. O espetáculo, nessa comparação, corresponde às gotas que permanecem no corpo depois que alguém deixa a água.
“Eu fiz um mergulho, assim. Eu entrei nesse mar gigantesco, que é a poética do Miró da Muribeca”, diz. “O Azul Miró, eu acho que são as gotas de água que ficam no corpo quando você sai do mar.”
A comparação ajuda a entender por que o solo não procura reproduzir diretamente a forma como o poeta ficou conhecido. Miró construiu uma obra marcada pela denúncia da violência, pela presença nas ruas e pela declamação intensa dos poemas. “Azul Miró”, por outro lado, trabalha com o silêncio, a delicadeza e espaços de indeterminação.
Quemuel não pretende apagar as características que fizeram de Miró uma referência da poesia marginal. Seu interesse está em ampliar as possibilidades de leitura de uma obra que, segundo ele, pode ser reduzida quando o poeta é situado apenas nessa categoria.
Ao tomar os poemas como herança, o artista propõe outra aproximação com essa produção, interessada também no lirismo, na estranheza e no direito de não precisar explicar tudo. O silêncio e os vazios que aparecem em cena não são falhas a serem preenchidas, mas elementos que permitem outras experiências com a poesia.
Essa escolha também passa pela compreensão de que uma obra pode continuar produzindo sentidos diferentes daqueles inicialmente associados a ela. Em vez de traduzir os poemas de maneira literal, o espetáculo estabelece uma relação própria com esse legado, atravessada pelo corpo, pela memória e pela experiência de quem o interpreta.
A sustentabilidade de artistas negros
A discussão sobre criação artística também se conecta às condições concretas para que artistas negros consigam permanecer trabalhando. Essa é uma das questões que Quemuel considera importante colocar em debate na roda de conversa que abre a programação da segunda temporada.
O artista chama atenção para a dificuldade de acesso de pessoas negras aos espaços de poder no campo cultural, tanto na criação quanto na ocupação de funções técnicas e na apresentação de projetos. Nesse cenário, artistas negros precisam construir estratégias para viabilizar seus trabalhos e dar continuidade às próprias trajetórias.
“Eu acho muito importante discutir a sustentabilidade de artistas negros. Porque a gente ainda está numa cidade que prioriza fichas técnicas com maioria de pessoas brancas, que ainda dificulta muito o acesso de pessoas negras aos espaços de poder na arte”, afirma.
Para Quemuel, compartilhar essas experiências é uma maneira de tornar visíveis os desafios que atravessam a produção artística e, ao mesmo tempo, fortalecer iniciativas coletivas. A criação de redes de apoio, circulação de conhecimentos e troca entre artistas aparece como parte importante da permanência de profissionais dissidentes no setor cultural.
É a partir dessa perspectiva que a roda de conversa “Arte Negra e Economia Criativa” reunirá o artista e Judson Takará. Doutorando em Artes Cênicas pela UFRN, Takará investiga as relações entre corpo, território, memória, arquivo e saberes de terreiro. Sua pesquisa atual, “Takará Igbá”, tem a cabaça como ponto de partida para experimentações que relacionam ancestralidade e criação artística.
O encontro amplia a programação para além das apresentações e abre espaço para discutir não apenas o que artistas negros produzem, mas também as condições necessárias para que essas produções existam, circulem e encontrem público.
Voltar a Natal para continuar
Nascido em Parnamirim, em 1999, Quemuel Costa é artista da cena e pesquisador. Licenciado em Teatro pela UFRN, atualmente cursa mestrado em Artes Cênicas na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e participa de uma residência artística em São Paulo, organizada pelo Pivô e pelo Instituto Brasileiro de Teatro.
Sua trajetória inclui os solos “Todas as vezes que beberdes em memória de mim” (2021), “Nenhum poema para amanhã” (2023) e “Azul Miró” (2025). Em 2025, foi selecionado pela Fundação Nacional de Artes (Funarte) para o programa internacional WYPPAM, durante o Festival Off Avignon, na França. Também participou do intercâmbio “Inclusão por meio das artes”, na Argentina, em 2023, com apoio do programa Erasmus+.
O retorno ao Rio Grande do Norte, mesmo enquanto desenvolve atividades em outros lugares, tem um significado particular para o artista. Mais do que apresentar novamente um trabalho, a temporada representa a possibilidade de preservar uma relação com o território de onde veio.
“Eu acho que significa um bocado retornar para apresentar em Natal. Principalmente porque eu acho que é um lugar de insistência, de continuidade, de manter uma relação, um vínculo com a cidade, que me interessa muito”, afirma.
Essa continuidade também passa pela aproximação com novos públicos. Além das sessões abertas no Espaço A3, o projeto levará o espetáculo a escolas públicas de Parnamirim, com apresentações fechadas nos dias 13 e 14 de outubro.
A segunda temporada de “Azul Miró” reúne, assim, diferentes dimensões da trajetória de Quemuel: a pesquisa sobre a memória negra, o diálogo com a poesia de Miró da Muribeca, a experimentação cênica e a preocupação com as condições de permanência de artistas negros na cultura. Tudo isso a partir de uma criação que encontra na relação entre um corpo e uma lona azul a possibilidade de construir outros sentidos.
Serviço
Azul Miró – Segunda temporada
Roda de conversa “Arte Negra e Economia Criativa”
Data: 13 de outubro de 2026 (terça-feira)
Horário: 19h
Local: Teatro Laboratório Jesiel Figueiredo, no Deart/UFRN
Entrada gratuita
Apresentações do espetáculo
Datas: 15 e 16 de outubro de 2026 (quinta e sexta-feira)
Horário: 18h30
Local: Espaço A3, em Natal
Entrada gratuita, com distribuição de ingressos 30 minutos antes de cada sessão.
Azul Miró nas Escolas
Datas: 13 de outubro (manhã) e 14 de outubro (tarde)
Público: escolas públicas de Parnamirim
Apresentações fechadas.


