Por Ulysses Freire
Hoje, ao acompanhar a enorme repercussão do incêndio no Circo do Tiru, instalado em Natal, uma reflexão me atravessou de forma muito forte. Em poucas horas, dezenas de matérias, entradas ao vivo, destaques em portais e milhares de postagens ocuparam os noticiários e as redes sociais. E claro: uma tragédia como essa merece atenção. Existe dor, prejuízo, impacto emocional e famílias afetadas. Isso não está em discussão.
O que me entristece é perceber que, muitas vezes, a cultura ganha muito mais espaço quando vira tragédia.
Quando um circo chega à cidade levando alegria para crianças, gerando empregos, movimentando hotéis, restaurantes, ambulantes, motoristas de aplicativo e toda uma cadeia econômica invisível para muita gente, o tratamento costuma ser diferente. Quantas vezes profissionais da cultura escutam que uma pauta “é muito comercial”? Quantas vezes um espetáculo, uma peça, um festival ou um projeto musical encontra portas fechadas por não ser considerado “notícia suficiente”?
Mas basta acontecer algo devastador para que todos os holofotes se acendam.
Existe uma contradição dolorosa nisso. Porque antes do incêndio existir, existia arte. Existiam artistas acordando cedo para montar estruturas, ensaiar números, vender ingressos, divulgar apresentações e sobreviver daquilo que fazem. Existiam famílias inteiras vivendo daquele sonho itinerante. Existia um trabalho diário de resistência cultural que raramente recebe o mesmo interesse dedicado à cobertura da tragédia.
E o mais simbólico nisso tudo é que, justamente hoje, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma lei que reconhece oficialmente o circo como manifestação da cultura e da arte popular brasileira. Na prática, a nova legislação reforça a importância do circo para a cultura do país e abre caminho para mais ações de valorização e preservação dessa tradição.
E fica a reflexão: quantos espaços você viu hoje noticiando isso?
E mais: entre uma manchete sobre o reconhecimento do circo como patrimônio cultural brasileiro e uma notícia sobre um incêndio devastador, em qual delas a maioria das pessoas clicaria primeiro?
Talvez essa resposta diga muito sobre o tempo em que vivemos.
Segundo a Fundação Nacional das Artes, o Brasil possui cerca de 800 circos de lona espalhados por todas as regiões do país, responsáveis pelo sustento direto de aproximadamente 20 mil profissionais. São famílias inteiras vivendo da arte, da emoção, da fantasia e do entretenimento. Gente que passa a vida levando alegria para cidades grandes e pequenas, muitas vezes enfrentando dificuldades invisíveis para o grande público.
A cultura não deveria precisar sangrar para virar manchete.
E talvez esse seja um dos maiores desafios de quem trabalha com comunicação cultural: lutar diariamente para convencer que entretenimento também é assunto sério. Que circo não é apenas diversão infantil. Que shows, teatros, festivais e eventos culturais não são apenas “agenda social”. Cultura gera emprego, renda, turismo, pertencimento e identidade. Cultura movimenta cidades inteiras. Cultura transforma vidas.
Como jornalista e assessor de imprensa, com muitos clientes e trabalhos ligados ao segmento cultural, confesso que dói ver o quanto lutamos por pautas positivas, enquanto a destruição naturalmente ocupa todos os espaços numa velocidade avassaladora. Não porque a tragédia não mereça cobertura, mas porque a construção também deveria merecer.
E faço questão de dizer que, graças a Deus, sempre encontrei muito apoio nos jornalistas e na imprensa em geral. Tenho parceiros que valorizam a cultura, abrem espaço, ajudam na divulgação e entendem a importância desse segmento para a sociedade e para a economia. O ponto não é criticar profissionais ou veículos, até porque sei dos critérios de noticiabilidade e também da necessidade comercial que existe dentro da comunicação.
Mas acredito que, no geral, essa balança precisa ser mais equilibrada.
Isso também está ligado ao interesse das pessoas, ao tipo de conteúdo que mais gera cliques, comentários, audiência e compartilhamentos. Muitas vezes, aquilo que causa choque, medo e dor acaba despertando muito mais atenção do que aquilo que leva alegria, cultura, entretenimento e esperança.
Ainda assim, acredito que precisamos valorizar mais aquilo que constrói. Precisamos aprender a consumir, compartilhar e apoiar mais as pautas positivas antes que elas se transformem em tragédia. Precisamos abrir espaço para falar dos bastidores, das histórias humanas e dos sonhos que existem por trás das lonas, dos palcos e dos projetos culturais.
Porque cada espetáculo lotado representa comida na mesa de muitas famílias. Cada evento realizado movimenta profissionais, gera renda e mantém viva uma cadeia econômica que quase nunca aparece quando o assunto é cultura.
A imprensa tem um papel importante nisso. Mas todos nós também temos.
Porque quando só enxergamos a cultura no momento da dor, acabamos ignorando tudo o que ela constrói diariamente em silêncio.
A tragédia choca. Mas a cultura sustenta.
E talvez esteja na hora de tratarmos isso com a mesma importância.

